Música de Transumância
A ideia de que somos aquilo que ouvimos é frequentemente repetida. Coexiste com outros truísmos bacocos, como somos aquilo que comemos, ou aquilo que fazemos. Somos o que somos: assim se concluem as grandes discussões filosóficas nas esplanadas do século XXI. Não me quero perder em exercícios estéreis sobre se a música do João Alegria Pécurto corresponde àquilo que eu sou (que aliás, nego saber). Surge-me, no entanto, como imediata a associação entre a dimensão espaço (o meu principal objecto de estudo quando visto o hábito do arqueólogo) e as paisagens sonoras do João cada vez que os seus discos tomam conta do espaço exíguo do meu quarto. A este respeito e sob a forma de apontamento, sem dúvida merecedor de um longo e mais profundo debruçar, julgo ser de fácil apreensão que esses discos, especialmente os dois de maior fôlego (Ambleteuse e Une Autre Mer) e agora estes últimos Isolamentos, remetem para uma intricada trama urbana. À semelhança de Richard Skelton, outro arquitecto-escultor da matéria sonora, João Alegria Pécurto convoca a ideia de lugar em cada dedilhar, em cada momento de silêncio entre notas. É pois nesses silêncios que a diferença entre estes dois músicos de espaço e de lugar, melhor se estabelece. Enquanto que o primeiro tem diante de si a paisagem aberta, como os páramos de Lancashire, João Alegria Pécurto habita a cidade, a casa, fazendo luz sobre a verdadeira essência da matéria arquitectónica. São as paredes e as janelas que enformam a casa, mas é o espaço vazio no seu interior a sua verdadeira essência (as ruas para a cidade). É nesse espaço interior que o João melhor se exprime, cantado a cidade reclusa enquanto perscruta uma hipótese de fuga. Sente-se que cada acorde na música do João, medita sobre uma qualquer possibilidade de encontrar um "lugar de silêncio", "um outro mar" no meio de uma paisagem ruidosa e fechada. Resisto aqui a invocar a ideia de labirinto. Neste último álbum, por exemplo, é notório um conhecimento profundo do contexto que relega o poder da forma. Mais facilmente encontramos uma paisagem labiríntica em Skelton do que em João Alegria Pécurto. João Alegria Pécurto conhece a cidade que calca. Canta-lhe a gesta do movimento, da reclusão, dos rastos que sobrevêm nos passeios depois dos milhares de passos diurnos. Conhece-a demasiado bem, por isso, não lhe faz a arqueologia do lugar como Skelton, não o historiografa, apenas o mapeia. E mapeia-o com a ideia de um roteiro transumante. "Trans" aqui também de transcendência, visto que no tom da música se sente essa ideia de sair do âmago da cidade, no caso Lisboa, procurando uma outra dimensão, um outro território para descansar o corpo. As neves e as chuvas que castigam pastores e rebanhos, são as buzinas, a cacofonia da cidade, a proximidade de homens tão perto uns dos outros mas tão distantes e João utiliza a sua música como uma espécie de transumância metafísica levando-nos com ele. Não é raro permitir-me a esse deslocar do corpo, partindo do espaço exíguo do meu quarto. Procuro despir-me da cidade, das casas, dos quartos carregados de um nebuloso génio do lugar. Parto nesse périplo de fuga para aliviar o desconforto dessa contemporânea convivência, aliviada ao lado de homens como Richard Skelton e João Alegria Pécurto que nas suas rotas transumantes deverão certamente descansar sob o tecto da mesma branda. Parto acompanhado do dedilhar de cordas, do tanger do arco, e sobretudo do silêncio entre notas, silêncio que magistralmente propõe ao corpo o calcar de novas rotas.
André Tomé
nomadismo.tumblr.com